segunda-feira, 8 de outubro de 2012

FORMAÇÃO E DEFORMAÇÃO



FORMAÇÃO E DEFORMAÇÃO
            “Precisamos, urgentemente, de fazer formação”. Isto é o que se ouve com certa freqüência. Entretanto, é necessário dizer qual formação pretendemos fazer e com quem. Ora, no âmbito religioso, existe, a formação espírita, a católica, a evangélica, a muçulmana, a budista... No âmbito político, existe a formação neoliberal, a nacional desenvolvimentista, a conservadora, a socialista reformista, a social-patriota, a socialista revolucionária.Num caso bastante extremo, e àguisa de ironia, poderíamos até dizer que existe, também, a chamada formação de quadrilha, como bem sabem, os envolvidos no escândalo do mensalão, episódio que se reporta a algumas das falcatruas acontecidas no governo Lula.
            Dependendo do ponto de vista e, até mesmo do grau de clareza que se possa ter, existem, em nome da formação, verdadeiras aulas de deformação quando se trata de política. Nesse sentido é bom lembrar que, desde 1921, quando se deu o X Congresso do Partido Comunista russo, se iniciou um processo que levaria à consolidação do nefasto fenômeno político chamado stalinismo. Aí, inaugurou-se um trabalho de pretensa formação que, a rigor, não passou, como ainda não passa, de um processo de deformação.
            Sim. Nesses últimos noventa anos de hegemonia stalinista, desenvolveu-se um intenso esforço objetivando a deformação do marxismo, impondo uma cultura dita socialista, porém, fundada em dogmas e, portanto negação peremptória  do socialismo revolucionário. Nesse gigantesco trabalho de deformação, feito em nome do socialismo, teve grande destaque o papel jogado pela nefasta Academia de Ciência da URSS. Trocando o marxismo por um rosário de dogmas, essa academia serviu de matriz na produção e difusão de manuais que se prestavam a castrar o lume revolucionário do marxismo e tudo isso era feito sob o carimbo do ”marxismo-leninismo”.
            Mas o imenso trabalho de deformação política, não foi somente empreendido pela Academia de Ciências da URSS. O Maoísmo, por exemplo, muito contribuiu para a consolidação de uma cultura deformada levada a cabo em nome da revolução. Tendo como figura central, Mao Tse Tung, lutador obstinado e de grande intuição, porém de acentuadas limitações na medida que nunca passou de um teórico sub-marxista com viés confuciano. Por seu turno, não podemos imputar a Fidel Castro nenhuma responsabilidade maior nesse processo de deformação do socialismo revolucionário, pois essa brava figura nunca extrapolou as raias do antiamericanismo e todo seu projeto político, nunca foi e nem vai além das fronteiras de sua consigna: “pátria ou morte venceremos”.
            A história do movimento socialista, pós o X Congresso do PC Russo, vai encontrar em Leon Trotsky e no trotskismo, meros operados de graves equívocos políticos e cultores de vários dogmas. Em primeiro lugar, Leon Trotsky e depois, seus seguidores, partiam e partem da errônea premissa de que a Revolução Russa foi traída, sem observar que, antes de tudo, ela foi derrotada. Ao lado desse e de tantos outros erros, os diversos grupos trotskistas, e não são poucos, continuam ferrenhos seguidores das resoluções tomadas no X Congresso do PC russo em 1921, que consistiam na supressão do livre debate; na imposição do monolitismo; na proibição de tendências; no partido único; e no falso conceito de “Partido da Revolução”, com todas as criminosas consequências políticas que de tais posturas decorrem.
            É em respeito a essas observações dos fatos que nos resguardamos, e até nos preocupamos, quando se fala na necessidade real de formação, sem explicitar, bem e muito bem, a sua natureza, pois, na maioria dos casos, os chamados trabalhos de formação, ao invés de formar militantes verdadeiramente socialistas, terminam por construir legiões de beatos, meros seguidores de diversos credos. Não podemos imaginar nenhuma força milagrosa por conta da palavra “formação” quando ela não é fundada em verdadeiros princípios, nem mesmo em dogmas, mesmo que estes tenham a respaldá-los, de forma indevida, figuras possuídas de grande prestígio como soe acontecer com o chamado Marx e Lenine que foram usados para cunhar a expressão “marxismo-leninismo”.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

QUAL ELITE?



QUAL ELITE?
            Com grande dose de insistência, os petistas têm afirmado que a “elite” não se conforma em ver um metalúrgico ter sido presidente da nossa pútrida república. Em primeiro lugar, é necessário deixar bem claro, que não se tratava de um metalúrgico no Planalto. Luis Inácio da Silva, que um dia representou as classes trabalhadoras, quando líder sindical e fundador do PT, deixou de ser um metalúrgico para se converter, tanto de corpo como de alma, em confiável gerente dos interesses do capitalismo.
            O seu primeiro passo, no sentido de sua radical mudança de postura, deu-se quando publicou a sua famosa “Carta ao Povo Brasileiro”. Neste documento público, o ex-metalúrgico apresentou-se como alguém em quem o grande capital deveria confiar. Eleito presidente, Lula e o seu partido, fizeram todo o empenho, em cumprir à risca o que havia prometido a burguesia e ela não haveria de ficar insatisfeita com essa atitude.
            Diante disso, cabe-nos perguntar: qual elite não se conformava em ver Lula no governo? Seria a elite do capital financeiro, cuja encarnação é formada pelos banqueiros tão bem sucedidos nos governos petistas? Seria a elite do agronegócio, que tem acumulado vultosas fortunas nesses últimos anos de governo? Seria a elite da burguesia industrial, que tem resmungado e se mostrado descontente com a leve diminuição dos seus lucros? Mas não foi essa elite industrial beneficiada com a renúncia fiscal através da suspensão de cobrança do IPI, em alguns ramos de atividade?  Seria a elite do crime organizado, que tanto prosperou nesses últimos anos, os insatisfeitos com o aludido governo? Enfim, qual é mesmo a elite que não se conforma com a presença do lulismo?
            Essa questão deveria ficar mais clara e não encoberta por nuvem de fumaça, alimentada pelo petismo e seus asseclas, com o objetivo de que tudo fique nebuloso, que nada seja visto. É dever da verdadeira, porém diminuta esquerda, explicitamente anticapitalista, procurar desnudar a inconsistência e a falácia desse mentiroso discurso de que a elite se sente incomodada com o Lula e com o lulismo. Isso é uma desbragada enganação, e é bom que nos lembremos do reconhecimento público do líder maior do capitalismo mundial, sr. Barack Obama, quando se referindo ao ex-metalúrgico disse: “ele é o cara”.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

DIREITA? QUE DIREITA?



DIREITA? QUE DIREITA?
                É comum ouvirmos comentários de pessoas do PT e do PCdoB, nos seguintes termos: “é preciso cuidar, a direita está à espreita e quer voltar ao poder”. É claro, que alguns fazem esse comentário de boa fé. É claro, também, que outros o fazem de má fé.  Antes, devemos desfazer um erro.  Governo e poder são coisas diferentes. Como temos mostrado, governos vão e vem, enquanto o poder (o Estado), é permanente. Os governos têm, como função gerenciar, episodicamente, os interesses do capitalismo, ou seja, têm a missão de gerenciar a desigualdade. Quando determinados governos colidem com os interesses da burguesia, esses governos são depostos . Os exemplos são fartos e, dentre eles, temos, a ressaltar, o caso do governo João Goulart, deposto por um golpe de Estado, levado a cabo pela burguesia, que soube usar as suas forças policiais e militares.
                Fica evidente que o poder é o Estado e suas instituições. Sua função, no capitalismo, é preservar os interesses desse sistema. Os processos eleitorais não põem em disputa o poder, de fato. Não votamos para escolher o Estado Maior das Forças Armadas, nem para o judiciário.  Não escolhemos os que exercem funções, ditas como de Estado.  Feitas essas observações, voltemos à questão inicial que seria o perigo da direita. Cabe-nos formular uma pergunta: não serão componentes da direita fisiológica os senhores José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Romero Jucá, Michel Temer, Fernando Collor, Paulo Maluf...? Essa gente não é apenas de direita, como direita eram Ulisses Guimarães, Mario Covas, Franco Montoro, Tancredo Neves... Acontece, que esta direita tinha um perfil nitidamente ideológico, enquanto o primeiro grupo citado, tem a inequívoca marca do fisiologismo e, não foi com a direita ideológica que o petismo se entendeu, pelo contrário, foi com a escória da direita fisiológica que eles se mancomunaram. 
                 Como, diante desse quadro real de nossa conjuntura política, podemos imaginar que existe uma disputa entre direita e esquerda?  É evidente que existe uma acirrada disputa entre um setor da direita explícita contra outro setor de direita, representado, acentuadamente, pelos partidos PT, PCdoB e PSB, o que vem confundindo muita gente. Negar esses fatos significa querer tapar o sol com a peneira. O carimbo de esquerda só se aplica àqueles que, de forma explícita e direta, se colocam em oposição, não aos fortuitos governos, mas ao capitalismo. Isso sim, é usar, com todo rigor necessário, o conceito de esquerda, o resto é falácia.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

MELHOR EDUCAÇÃO?



MELHOR EDUCAÇÃO?
            Nessa campanha eleitoral de 2012, em torno da sucessão municipal, assistimos, dos mais diversos candidatos, a promessa de promover um trabalho eficiente que garanta uma educação melhor, um serviço de saúde melhor, uma segurança pública melhor... Nesse tipo de colocação, está embutida a premissa de que temos educação, saúde, segurança e outros serviços públicos bons, e que se pretende apenas melhorar. Ora, essa premissa é falsa. O quadro geral dos serviços públicos é crítico ou abaixo da crítica, quando tratamos, especialmente, de educação, saúde e segurança.
            Regra geral, os candidatos não consideram que vivemos na sociedade capitalista. Isto é, solenemente posto de lado e, mesmo os vários partidos socialistas, comunistas, trabalhistas não levam em conta o verdadeiro caráter socioeconômico da sociedade em que estamos inseridos. Desde muitos anos, temos dito e repetido, que nos limites do capitalismo, as massas trabalhadoras, o povo deserdado em geral, só podem pretender o menos ruim. No capitalismo só caberá ao povo, na melhor das hipóteses, uma escola menos ruim, um serviço de saúde menos ruim, um serviço de transporte menos ruim, salários menos ruins e até um governo menos ruim.
            Nesta sociedade o que é bom, o que é excelente, estão destinados a uma pequena minoria que é a classe burguesa. Essa sim, têm escola de qualidade, saúde de qualidade, alimentação e vestuário da mais fina excelência e, para ela, a burguesia, os governos que lhe servem são considerados bons, desde que exerçam com competência a tarefa de administrar a desigualdade, como bem fez e faz o governo petista, refreando os descontentamentos populares e assegurando tranquilidade e bons lucros, para sua classe.
            Vemos a partir dessas colocações que o sistema capitalista goza de uma situação política bastante cômoda. Encontramos, no máximo, forças políticas que se opõem a circunstanciais governos. Não vemos, porém, movimentos que se coloquem, explicitamente, em oposição à ordem vigente.
            Essa situação é bastante preocupante, pois o capitalismo, apesar de enfrentar sucessivas e graves crises, goza de uma incontestável hegemonia política, uma vez que não existem mobilizações, de natureza anticapitalista, que se expressem com razoável força. Além da denúncia desse sistema como causa das desigualdades, necessitaríamos de ter uma bem elaborada proposta de construção de uma nova ordem.  Sem isso, não iremos muito além de uma perspectiva trágica para humanidade.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

MISÉRIA ASSISTIDA



 MISÉRIA ASSISTIDA

            Há uma diferença abismal entre marxistas e cristãos, diante da pobreza e da miséria. Enquanto os cristãos buscam administrar a miséria promovendo campanhas assistencialistas que tornem a vida dos deserdados menos cruel, os marxistas têm como proposta a erradicação da pobreza e da miséria atacando a causa. Os cristãos, por mais de dois milênios, levam a cabo várias campanhas do tipo: a sopinha dos pobres, cobertor para os desvalidos diante do impiedoso frio, albergue para os desamparados e outras iniciativas do gênero que, se servem para minorar o sofrimento imediato de uma pequena parcela da população carente, servem muito mais para assegurar às almas caridosas, uma compensação na “vida eterna”.
            Os gestos caridosos dos cristãos têm permitido que alguns deles galguem a posição de santos no reino celestial, numa prova concreta de que investir na miséria, torna-se pelo prisma religioso, um bom investimento para quem o pratica. Enquanto isso, os marxistas preocupam-se com a desconstrução do sistema capitalista como causa da pobreza e da miséria. Mas eles, os marxistas, não pretendem salvar o povo de suas agruras e, ao invés de sopas, cobertores, albergues, preferem ministrar doses maciças de conscientização, pois entendem que a humanidade só pode se livrar das chagas sociais que se abatem sobre a pobreza e a miséria, quando a massa de explorados e oprimidos tomar consciência de que seus sofrimentos só podem ser abolidos a partir da ação libertadora dos próprios explorados.
            “A obra de libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores” ou não haverá libertação. A postura do petismo e de outros demagogos, vai no sentido de buscar administrar a pobreza e a miséria e dela tirar dividendos políticos, como é o caso da campanha Bolsa Família. Daí, a indecente colocação dos candidatos petistas que se propõem, demagogicante,” cuidar do povo como Lula ensinou”. Isso é sumamente imoral, e é assustador que essa posição política, de caráter demagógico e paternalista,  seja assumida por pessoas que no passado recente se reivindicavam socialistas revolucionários.
             Essas questões, e tantas outras têm que ser refletidas sob pena de nos afundarmos, como tem acontecido diante do discurso falacioso verbalizado pela esquerda direitosa tão bem representada pelos partidos PT-PCdoB-PSB.