sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A miséria assistida



A miséria assistida

Há uma diferença abissal entre marxistas e cristãos, diante da pobreza e da miséria. Enquanto os cristãos buscam administrar a miséria promovendo campanhas assistencialistas que tornem a vida dos deserdados menos cruel, os marxistas têm como proposta a erradicação da pobreza e da miséria atacando a causa. Os cristãos, por mais de dois milênios, levam a cabo várias campanhas do tipo: a sopinha dos pobres, cobertor para os desvalidos diante do impiedoso frio, albergue para os desamparados e outras iniciativas do gênero que, se servem para minorar o sofrimento imediato de uma pequena parcela da população carente, servem muito mais para assegurar às almas caridosas, uma compensação na “vida eterna”. 

Os gestos caridosos dos cristãos têm permitido que alguns deles galguem a posição de santos no reino celestial, numa prova concreta de que investir na miséria, torna-se pelo prisma religioso, um bom investimento para quem o pratica. Enquanto isso, os marxistas preocupam-se com a desconstrução do sistema capitalista como causa da pobreza e da miséria. Mas eles, os marxistas, não pretendem salvar o povo de suas agruras e, ao invés de sopas, cobertores, albergues, preferem ministrar doses maciças de conscientização, pois entendem que a humanidade só pode se livrar das chagas sociais que se abatem sobre a pobreza e a miséria, quando a massa de explorados e oprimidos tomar consciência de que seus sofrimentos só podem ser abolidos a partir da ação libertadora dos próprios explorados. 

“A obra de libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores” ou não haverá libertação. A postura do petismo e de outros demagogos vai no sentido de buscar administrar a pobreza e a miséria, e dela tirar dividendos políticos, como é o caso da campanha Bolsa Família. Daí, a indecente colocação, dos candidatos petistas que se propõem, demagogicante,” cuidar do povo como Lula ensinou”. Isso é sumamente imoral, e é assustador que essa posição política, de caráter demagógico e paternalista, seja assumida por pessoas que no passado recente se reivindicavam socialistas revolucionários.

Essas questões e tantas outras têm que ser refletidas, sob pena de nos afundarmos, como tem acontecido diante do discurso falacioso verbalizado pela esquerda direitosa tão bem representada pelos partidos PT-PCdoB-PSB.




quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Ação Social e Socialismo



Ação Social e Socialismo

Há uma confusão reinante, que atinge setores da “esquerda”, em confundir ações sociais como se fossem ações socialistas. Não percebem esses senhores de “esquerda”; deles até existem os que se proclamam “marxistas-leninistas” ou mesmo “marxistas-leninistas-trotskistas”, que a política de promoção calcada em ações sociais foi assumida pela burguesia internacional, particularmente nos países da Europa Ocidental, como forma de conter um possível avanço do projeto socialista.

Assim é que os senhores do capital implementaram uma política que entrou para a História como sendo a criação de Estados de “bem estar social”. Na vanguarda desses estados capitalistas, estavam os chamados países nórdicos e neles existiam e sobrevivem políticas assistencialistas, tão “avançadas” que chegavam a se colocar como uma via para um presumido socialismo democrático. Na verdade, esses países apresentavam um nível de bem estar e segurança social muito acima dos padrões, nos indevidamente chamados países socialistas. Mas, não foi somente nos países nórdicos que se fez presente o maior assistencialismo nos limites do capitalismo. Em países como Alemanha, França, Bélgica, Áustria..., observava-se a existência de políticas semelhantes, com mais ou menos graus. 

Esse perfil avançado de política social, vamos encontrar também nos EUA, no Canadá e no Japão, para citarmos alguns poucos exemplos. Ora, essa manobra de levar avante políticas assistencialistas, para garantir o apoio das massas populares ao sistema capitalista, teve pleno sucesso e, não é de bom alvitre que, partidos e militantes supostamente socialistas, acenem para o povo com promessas de ações sociais, cujo resultado final é, sem dúvida, o fortalecimento do próprio capitalismo, pois essa conduta dá margem a que se imagine ser possível, no âmbito desse sistema, se promover a emancipação da humanidade dos grilhões da espoliação em que vive. Vale, pois, nos desfazermos desses equívocos e pararmos de confundir ação social com o projeto emancipador de que o socialismo é instrumento. O fundamental não é administrar a pobreza e a miséria e, sim, erradicá-las.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Causa e o Partido



A Causa e o Partido


O que chamamos de causa é o objetivo que se pretende alcançar. Dessa forma teremos diversas “causas”. Tomemos o capitalismo como ponto de referência. Teremos, então, basicamente, dois projetos políticos, duas causas fundamentais: O primeiro estaria voltado para a conservação do próprio sistema e, o segundo, estaria empenhado em superá-lo, promovendo a transformação social. Ao primeiro projeto, chamamos de conservador. Ao segundo, é dispensada a denominação de revolucionário. 

Essas correntes são dotadas de perfis diversos. Uma forma extremada, de postura contrarrevolucionária, observou-se com o nazifascismo e com o totalitarismo stalinista, assim como hoje temos o fundamentalismo islâmico. Ao lado desse direitismo exacerbado, temos a direita reformista, cujo lema é: Vamos reformar para conservar.

Da derrota política do movimento socialista em escala mundial nasceu o stalinismo, força relevante para a sobrevivência do capitalismo. Diz-se que o pior inimigo é o falso amigo, e o stalinismo, travestido de esquerda, prestou-se a garantir a estúpida sobrevivência da ordem socioeconômica vigente.

A “esquerda stalinista”, de diversos matizes, chegou ao absurdo de reduzir o conceito de revolução a partir da dicotomia: Caminho pacífico (revisionista) e luta armada (revolucionário), o que expressa o grau de rebaixamento político que o stalinismo impôs durante seus longos anos de hegemonia.

Essencial é ter claro que toda causa política necessita de instrumentos para viabilizar-se e aí está a figura dos partidos, como ferramenta. Por definição, os instrumentos são subalternos à causa e, quando se fere esse princípio, se descamba para a prática burocrática com os seus desvios.

Assim sendo, partido nenhum, candidatura nenhuma, pode se converter no fim. São apenas meios e, quando se conflitam com a causa, ou se atira o instrumento ao lixo, ou haveremos de desservir aos nossos reais objetivos.

Desprovidas de sensatez são as comemorações de caquéticos partidos, ditos comunistas ou socialistas, festejando suas longas vidas. Por sua vez, é um despropósito nos centrarmos em candidaturas, julgando-as salvadoras da Pátria.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A capitulação semântica



A capitulação semântica

A esquerda, de matriz stalinista, há muito abandonou o socialismo. Trocou o princípio do antagonismo de classes pelo discurso social-patriota, imposto pela burguesia à Segunda Internacional. Isso a levou a abandonar o caminho da insurreição socialista para assumir-se como defensora da pátria. 

Por ironia da história, a Terceira Internacional, criada pelos bolcheviques, após o triunfo de 1917, para combater o social-patriotismo da Internacional anterior, terminou com a derrota da Revolução Mundial e a consolidação do stalinismo, convertendo-se num novo antro do social-patriotismo. 

O princípio da contradição capital/trabalho, burguesia/proletariado, foi substituído pela contradição “nação opressora versus nação oprimida” e, sob essa bandeira, a “esquerda” produziu agrupamentos patrióticos, esquecendo-se da singela lição de que “o proletariado não tem pátria”. 

Essa distorção fez surgir uma falsa esquerda. Depois da queda do Muro de Berlim, ela, que se apoiava no fraudulento discurso da existência de dois mundos, o mundo capitalista e o mundo socialista, convivendo pacificamente, ficou sem discurso. A partir daí, ela mergulhou totalmente no rumo da capitulação e aderiu aos truques semânticos patrocinados pela burguesia. 

Não fala mais, a esquerda direitosa, em burguesia; prefere vociferar contra as elites, que é um vocábulo politicamente impreciso. Ao invés de capitalismo, que expressa o conceito de um sistema de classes prefere, até com certo pedantismo, falar em capital, que é apenas parte desse sistema e, portanto, insuficientemente claro aos olhos e ouvidos dos trabalhadores. Outra expressão sofisticada, longe do alcance dos trabalhadores é contra-hegemonia, que objetiva dizer contra o poder da “elite”. 

Para maior pesar, essa esquerda procura se abastecer no velho discurso burguês dos iluministas do século XVIII, lançando mão da expressão “república”, como coisa pública, e, mais abusivamente ainda, lançando mão da palavra “cidadania”, como forma de diluir o caráter de classe da sociedade.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A barbárie está aí



A barbárie está aí

Há mais de cem anos que Frederico Engels afirmou viver a sociedade capitalista um dilema: “O socialismo ou o caos”. Anos depois, Rosa Luxemburgo dava ênfase à colocação feita por Engels, dizendo que o dilema da sociedade capitalista era “o socialismo ou a barbárie”.

Certa esquerda sempre teve um comportamento declamatório diante da literatura socialista, repetindo frases sem atentar para o seu significado. Poderíamos fazer uma lista infinda de tais afirmações cientificamente fundamentadas e sucessivamente repetidas como peças declamatórias, sem se fazer a menor reflexão sobre o seu conteúdo. Dentre elas podemos destacar: “Socialismo ou a barbárie”.

Não estamos nos dando conta que o capitalismo marcha celeremente para o desastre total. Não atentamos para o fato de que, a cada dia, ele tritura vidas, destrói a natureza, corrompe os costumes, de forma cada vez mais acentuada. É a iminência de explosões sociais que podem levar as massas populares ao saque, à depredação, à vingança social, sem rumo e sem proposta.

Enquanto isso, a grande maioria das pessoas se perde em torno de infindáveis disputas de grupos ou partidos, em batalhas mesquinhas, sem se darem conta da profundidade da crise que estamos mergulhados. 

“Socialismo ou barbárie” não é simplesmente frase de efeito. Encerra um dilema concreto da sociedade capitalista que tenta manter-se de forma obstinada, pouco lhe importando os interesses gerais da humanidade. Daí, a razão pela qual eles proclamam triunfante a “derrocada do socialismo”. Para nós outros, a questão coloca-se de outra forma: A inviabilidade do socialismo implica, inevitavelmente, a negação do capitalismo pela barbárie, pelo desastre histórico.

Como tudo o mais, o capitalismo não é eterno, bem se sabe. Mas devemos envidar esforços, enquanto é tempo, para que seu fim não nos conduza à grande tragédia do fim da humanidade. Para tanto, há que se impor, como solução, a negação do capitalismo pela afirmação do gênero humano, através do socialismo.